Venda de excedente solar: como funciona e quanto pagam mesmo
Vender o excedente dos painéis é possível, mas paga entre 0,04 € e 0,07 € por kWh. Explicamos como se vende, como se escolhe o contrato e por que é que aproveitar em casa vale mais.
Equipa Solprime · 22/08/2026 · 6 min de leitura
Há uma pergunta que aparece em quase todas as visitas técnicas, normalmente já no fim, quando a conversa abranda: «e o que sobra, vendo?»
A resposta é sim. Pode vender. Mas antes de contar com esse dinheiro nas contas do investimento, vale a pena saber quanto é que realmente pagam — porque o número costuma surpreender, e nem sempre pela melhor razão.
O que é o excedente, afinal
Os painéis produzem ao longo do dia, com o pico a meio da tarde. A casa, essa, consome quando as pessoas lá estão: de manhã cedo e a partir do fim da tarde.
Essas duas curvas não coincidem. Há horas em que os painéis produzem mais do que a casa está a gastar naquele instante. A essa diferença chama-se excedente.
O excedente tem três destinos possíveis, e a escolha entre eles muda bastante a conta final.
Entregar à rede. A energia vai para a rede e não recebe nada por ela. Sem contrato, sem burocracia. É o que acontece por omissão a quem não faz nada.
Vender. Faz um contrato com uma empresa que compre excedente e passa a receber por cada kWh injetado.
Guardar. Com bateria, o excedente fica em casa e é usado à noite, em vez de ser vendido barato durante o dia.
Quanto pagam mesmo
No mercado residencial português, os valores praticados andam tipicamente entre 0,04 € e 0,07 € por kWh injetado.
Compare com o que paga para comprar um kWh à rede, já com taxas e impostos. A diferença é grande — e é essa diferença que decide tudo o resto neste artigo.
Na prática, a ADENE aponta para um rendimento anual entre 15 € e 200 € por ano para um pequeno produtor. Não é dinheiro a mais. Também não é dinheiro que mude a viabilidade de um investimento.
Como se vende, passo a passo
O processo foi simplificado e hoje faz-se uma vez só.
1. O sistema tem de estar registado na DGEG. Se a instalação foi feita em condições, isto já está tratado.
2. O contador tem de ser bidirecional. Ou seja, capaz de distinguir a energia que entra da que sai. Se o seu não estiver preparado, a E-REDES substitui ou adapta sem custo para si, depois de feito o registo do autoconsumo.
3. Abertura de atividade nas Finanças. É um passo administrativo simples, feito uma vez.
4. Contrato com uma empresa compradora. Escolhe, assina, e a partir daí a leitura do contador é automática. A empresa calcula o valor e paga por transferência, mensal ou trimestralmente conforme o contrato.
Preço fixo ou indexado ao mercado?
Quem compra excedente costuma apresentar duas modalidades. Vale a pena perceber a diferença antes de assinar.
Preço fixo. Um valor por kWh, sempre igual, definido no contrato. Sabe exatamente o que recebe. Em contrapartida, não aproveita nada quando o mercado sobe.
Preço indexado ao OMIE. O OMIE é o mercado grossista de eletricidade ibérico. Neste modelo, o que recebe acompanha esse mercado, deduzida a margem da empresa compradora. Rende mais nos meses bons e menos nos maus.
O OMIE oscila muito mais do que a maioria das pessoas imagina. Em 2024 houve dias com médias acima de 0,12 €/kWh e dias abaixo de 0,005 €/kWh. Quem escolhe indexado tem de estar confortável com essa variação.
O que comparar entre propostas: a margem aplicada sobre o mercado, a periodicidade do pagamento e se existe fidelização. Peça tudo por escrito antes de assinar.
Impostos: o que precisa de saber
O Código do IRS exclui de tributação até 1.000 € por ano de rendimentos obtidos com a venda de excedente de eletricidade renovável produzida para autoconsumo, desde que a unidade de produção tenha potência instalada até 1 MW.
Acima desse valor, o enquadramento fiscal tem de ser analisado caso a caso. Para uma moradia com um sistema normal, este limite raramente é ultrapassado.
A conta que interessa mesmo
Aqui está o ponto que muda a forma de olhar para todo o assunto.
Cada kWh que a casa consome na hora vale o preço cheio que pagaria por ele à rede, com taxas e impostos incluídos. É energia que simplesmente não compra.
Cada kWh que vende vale entre 0,04 € e 0,07 €.
O mesmo kWh, dois destinos, valores muito diferentes. É por isso que a pergunta certa não é «quanto consigo vender?», mas sim «quanto consigo aproveitar?».
E é também por aqui que se percebe o papel da bateria. O excedente da tarde, em vez de ser vendido a preço de mercado grossista, fica guardado e é usado à noite — altura em que, sem ele, estaria a comprar energia ao preço cheio.
Como é que isto muda o dimensionamento
Um sistema pode ser desenhado de duas maneiras muito diferentes.
Pode ser desenhado para produzir o máximo, encher o telhado de painéis e injetar tudo o que sobra. Fica um sistema grande, mais caro, e boa parte da produção vale cêntimos.
Ou pode ser desenhado para a casa consumir o que produz. Menos painéis, dimensionados ao perfil de consumo real da família, com armazenamento onde faz sentido. O sistema é mais pequeno, custa menos, e cada kWh produzido vale mais.
É esta segunda abordagem que seguimos. Numa das nossas instalações em Cascais, 3,6 kWp com uma bateria de 5 kWh foram suficientes para que 63% de tudo o que a casa consumiu desde a instalação não viesse da rede. Não foi preciso um sistema maior.
Perguntas frequentes
Sou obrigado a vender o excedente? Não. Pode simplesmente entregar à rede sem qualquer remuneração, e há quem prefira essa simplicidade. Também pode reduzir o excedente ao mínimo, aproveitando mais em casa.
Vale a pena o trabalho de fazer o contrato? Depende do excedente que tem. Se a casa aproveita quase tudo o que produz, o valor a receber será pequeno e o processo pode não compensar o incómodo. Se sobra bastante, faz sentido.
A empresa que me compra o excedente tem de ser a mesma que me vende eletricidade? Não. Pode ser a mesma ou outra diferente.
Compensa mais bateria ou vender? Na maioria dos casos de moradia, guardar vale mais do que vender — precisamente por causa da diferença entre o preço de compra e o de venda. Mas depende do perfil de consumo da casa, e é isso que se avalia no diagnóstico.
Quanto tempo demora até receber o primeiro pagamento? Costuma demorar algumas semanas desde a entrega da documentação até ao primeiro acerto, dependendo dos prazos de cada empresa.
Antes de decidir
A venda de excedente é uma peça pequena de um puzzle maior. Não é por aí que um sistema solar se paga, e desconfie de quem lhe apresentar a venda de excedente como argumento principal de venda.
O que faz diferença é o sistema estar dimensionado para a casa certa, com a quantidade certa de painéis e o armazenamento certo — ou nenhum, se não compensar.
Se quiser perceber o que faz sentido no seu caso, fazemos esse diagnóstico antes de propor seja o que for. E se não compensar, dizemos.
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